Crônicas

A solução vive nas cinzas

A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. 

Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei? 

No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo? 

Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor? 

O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”

Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA! 

A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem.  É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.

Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto. 

E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?

Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.

E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.

Todo ano tem carnaval!

Soraya Jordão

Soraya Jordão é psicóloga e escritora. Nasceu no Rio de Janeiro em 1968, sob o signo de Virgem. Durante a pandemia, descobriu seu interesse pela escrita. É autora do e-book de contos Histórias que contei pra Lua, publicado pela Amazon, em 2022. No mesmo ano, publicou o livro infantil O plano do tomate Tomé, pela editora Itapuca. Foi finalista do concurso Poeta Saia da Gaveta do Verso Falado (2021) e do concurso de crônicas do Instituto Fome Zero (2022). Recebeu menção honrosa no Concurso Literário Relâmpago Virtual, da FALARJ, em 2023. Seu primeiro romance Ciranda de mamutes foi selecionado e publicado pela Editora Patuá em 2023. Escreve para os sites Crônicas Cariocas e Crônica do Dia.

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